Filosofia
Não encontro mais o lugar de onde falo. Estas incertezas já tomaram há muito minha alma de assalto.
Palavras vêm e vão e só tenho em mim o silêncio do abandono das horas.
Esta forte afecção que me remete ao destino da espécie ao imitar a morte.
Peço à minha mente um pouco de ordem para que a mesma não sucumba de vez.
Procuro intensamente meu reflexo no espelho. O outro que se anuncia quando me vejo na ilusão das formas.
A criação obscurece meus sentidos. Frente à imensidão do cosmos, estou ainda menos do que minha própria sombra.
Nada pode ser descrito agora. Meus sentidos à deriva como se nada fossem.
Eis o que diz o vento:
Alguém em mim padece de um mal qualquer.
Este algo que adentra a alma e me consome como o resto de meus dias.
Tenho o hábito de caminhar todas as manhãs ao longo da praia.
Toda vez que o faço, posso sentir o sangue coagulando lentamente nas partes vitais de meu corpo.
Sempre quando acordo, tenho a exata sensação de que estou próximo ao fim.
Uma torrente de imagens desaba sobre mim e então percebo a indigência daquilo que ecoa no silêncio do verbo proferido.
Não há diferença alguma entre um homem e um grão de areia:
Cuspidos ambos por um mal-estar qualquer do universo.
Os sons e as palavras.
Antes mesmo das palavras apenas sons indistintos a martelar a mente.
Um lugar anterior ao que possa ser dito por quem quer que seja.
Os homens sem eles mesmos. Fora de toda e qualquer ilusão na qual possam se ver como tais.
O som em sua ausência absoluta, inebriante como o vinho, tão ou mais onisciente do que o além.
Só nos resta isto que possa parecer o que é:
Esta clareira que se abre quando se está assim como está. Este algo que antecede os grilhões das formas e imagens.
Os sons e as palavras:
Ambos agora a escorrer como as águas de um rio.
Nada vejo quando estou só.
A escuridão me lança de encontro ao abismo do insondável.
Compreendo o incompreensível quando estou próximo à desintegração de meu nome.
Não há mais nada a ser dito quando a mente titubeia nos corredores do desterro.Estou exatamente na distância inexorável entre as palavras e as coisas.
Cada vez mais estranho e frio como um morto.
As intrigas de Nero agora me são indiferentes.
Aproximo-me de Tácito neste sentido.
O envenenamento de determinados senadores assim se apresenta como uma vontade dos
Deuses.
Parece legítimo, entretanto, o registro dos mesmos.
Sêneca e sua imperturbabilidade quando do fim de seus dias.
Sua negação da vida pública em prol do isolamento reflexivo. A quietude como conquista primordial do pensar. O espírito atormentado dos proscritos.
A imagem do deserto que se abre na indiferença do infinito:
Nenhum lugar é suficientemente propício.
Nunca soube nada acerca do que me diziam as palavras.
Sempre estive escuro no lugar qualquer no qual as coisas se esquecem de ser.
Para mim, o caminho é sempre aquele que se faz ao desaparecer bem em frente ao muro inesgotável do acaso.
Acordo e durmo tão frio quanto um verbo mal digerido nas entranhas corrosivas deste além que pulsa nas sarjetas de ocasião.
Corredores extensos percorrem estes meus gestos que se ausentam em minha alma combalida.
Esta febre e arrastar de correntes nos calabouços da memória.
Sócrates se foi pela palavra. As leis e os Deuses foram os substantivos através dos quais manteve a dignidade.
Seu estado de espírito tornou possível a intensidade de sua partida.
Sócrates caminha na direção da perda de um si mesmo.
É essencial que ele se vá para que o absurdo da ordem seja corroborado.
Sócrates enredado nos traços obsessivos em toda e qualquer fruição de sentido.
As palavras possíveis e longe de si mesmas no Críton.
Quem fala em Sócrates é uma alma que se desfaz como os dias e as noites.
A aparência é a cópia imperfeita e manifesta naquilo que comumente se chama de literalidade. Trata-se de um caminho ínvio e quase insondável.
Cabe ao intérprete desvelar a transfiguração desta falta que aguça seus sentidos na direção mesma de um despojar-se. A inconsciência é precisamente aquilo que lateja em toda e qualquer grande obra. Entre o desejo e sua interdição, uma voz ecoa nos corredores do impossível.
Albert Camus procura um silenciar em alguns de seus magníficos ensaios.
Não encontra nas famosas capitais européias o seu lugar. Todas ainda demasiadamente barulhentas.
Camus na direção de um reencontro mental originário.
A imagem de um deserto repleto de rochas em sua instigante quietude.
A natureza brutal da África no deserto de Oran em seu visceral esplendor. O coração e a mente não podem agora se desviar de si mesmos. Não podem agora se desviar do homem.
Oran com suas ruas enlameadas e céu indiferente e mau gosto nas lojas de artefatos variados.
A sensação de solidão e de vazio que poucas capitais oferecem. Oran é um lugar no qual os homens as possuem.
Estão cada vez mais próximos de seu falta essencial. A angústia imperiosa que os arrebata.
Não se trata apenas de afirmar que a existência precede a essência. Há muito pouca coisa numa afirmação desprovida de alma como esta. A essência precede a existência.
Importa dizer, com a força de súbitas ondas, que tudo se faz a partir de um estar no mundo. Os sentidos aguçados e imersos na teia infindável da vida.
As essências voláteis atiradas no chão indiferente de nirvanas distantes. Nunca a partir das reminiscências poderemos sangrar em pensamento indefinidamente. Heráclito nos diz sabiamente que tudo é e não é. Do finito ao infinito. O fluxo inexorável das coisas.
Ser lançado ao mundo na perenidade da escolha. Este o maior tormento para os estóicos.
Para onde caminha o impensado?
Trata-se aqui de uma aporia. Não há solução viável para este tipo de questão. Não se trata ainda de tentar respondê-la através da afirmação de uma premissa por ela mesma. Estamos distantes das tautologias. Temos assim uma dificuldade ilógica insuperável.
Trata-se aqui de uma questão originária.
O termo originário remete à noção de algo que não ocorreu e que não existiu antes.
Trata-se assim de uma falsa questão.
Para responder à mesma é mister que ignoremos todo e qualquer processo racional.
Os sentidos devem estar absolutamente fora de si mesmos. O inusitado conjugável em ouvir, ver, tocar, cheirar e sentir o gosto de coisa alguma.
Para onde caminha o impensado?
Este algo ainda mais singular do que o nada.
Minha mente foi tomada pelo vazio anterior ao verbo. Estou agora onde não posso jamais estar. Posso caminhar por aí e dizer que não sei se algum dia o fiz.
Esbarro em sentidos outros invisíveis em meu desejo arrefecido pelas sombras.
Não posso mais deglutir o que resta de minha alma em frangalhos.
Meu nome indefinido em ninguém.
um pensamento sem forma/
caminha como a anoite
e estraga o que resta/
desta hora vazia.
um pensamento sem vida/
derruba as árvores da floresta/
e os pássaros fogem em revoada/
e as folhas caem na aspereza da palavra chão.
eu esqueço dos homens/
quando me torno sombra/
na calada do vento/
ou no buraco da palavra fechadura
eu agora ando desconcertado/
como se fosse feito de papel/
e tudo em mim sangra sem alarde/
como o frio que congela a palavra frio.